Introdução

Olá, amigos homo sapiens, tudo bem por aí? =)

Hoje o papo é um pouco diferente. Se você me conhece minimamente, já deve ter percebido que eu sou insuportável quando o assunto é design, letra, espaço e clareza. E muito disso vem de um lugar que tem nome: Visual Law.

Durante as idas e vindas da minha carreira, eu trabalhei um ano e meio numa empresa de Visual Law (mas não apenas uma empresa de Visual Law, e sim um estúdio de Legal Design e Visual Law premiado lá fora! O Vitta!). O olhar que eu aprendi lá virou a base de tudo o que eu faço hoje, do briefing de um site a uma estratégia de marketing completa!

E neste guia, eu explico o que é Visual Law, o que é Legal Design, por que a Justiça brasileira já recomenda essa abordagem e como ela pode deixar qualquer contrato, proposta ou orçamento do seu negócio mais fácil de entender.

E, no meio do caminho, conto como isso mudou a minha vida.

Então, sem mais enrolação, vamos lá…

Neste guia, você vai:

  • Entender o que é Legal Design e o que é Visual Law, e a diferença entre os dois.
  • Ver por que a Justiça e a lei brasileira passaram a cobrar linguagem clara.
  • Conhecer os recursos mais usados, com um antes e depois, e os erros mais comuns.
  • Conhecer o UX Writing: por que ele nasceu, o que já foi medido e por que bebe da mesma fonte do Visual Law.
  • Saber o que os juízes acham de Visual Law em petição.
  • Entender onde a IA ajuda e onde ela atrapalha.
  • Descobrir como essa abordagem virou a base do meu método.
  • Saber como aplicar no seu negócio, mesmo sem ser advogado.

Primeiro, o básico: as palavras do guia

Antes de tudo, vamos combinar o significado de três termos que andam juntos e confundem muita gente:

  • Legal Design: um jeito de pensar e resolver problemas jurídicos com o design, a começar pelo design da escrita (entender a comunicação, testar, simplificar, tornar eficiente), para tornar o direito mais fácil de usar. Vale para documentos, sites de tribunais, atendimento e até serviços jurídicos inteiros.
  • Visual Law: a parte do Legal Design que cuida do visual do documento. Títulos que organizam, ícones, linha do tempo, fluxograma, tabela, resumo no topo. E atenção: o foco não é enfeitar, e sim comunicar com eficiência, para evitar retrabalho, interpretação vaga, conflito e ajuste desnecessário.
  • Linguagem simples: escrever para o leitor entender de primeira, com frase curta, palavra comum e ordem direta.

Uma das referências mundiais no tema é o Legal Design Lab da Universidade Stanford, criado por Margaret Hagan, que começou o projeto em 2013 e hoje é professora da faculdade de direito e da escola de design de lá. A proposta do laboratório é tornar o direito mais útil e acessível para as pessoas comuns, com design centrado no ser humano.

PerguntaLegal DesignVisual Law
O que é?Um jeito de pensar e resolver problemas jurídicos com o design da escritaUma técnica para deixar o documento mais eficiente
TamanhoAmplo: serviço, processo, atendimento, documentoFocado: a peça que a pessoa vai ler
ExemploReescrever como um contrato ou uma peça comunica as suas questõesTransformar um contrato de 12 páginas num resumo com ícones e tabela
RelaçãoÉ o guarda-chuvaEstá dentro do Legal Design
Legal Design e Visual Law lado a lado: o primeiro é o método, o segundo é uma das ferramentas.

Pausa de respiro

Vamos tentar entender com um cliente “real”?

Cliente hipotético: Academia do Rafa

O Rafa tem uma academia de bairro e vive discutindo na recepção com aluno que quer cancelar o plano anual. O contrato dele diz assim: “O CONTRATANTE declara-se ciente de que a rescisão antecipada implicará a cobrança de multa compensatória equivalente a 20% das parcelas vincendas.”

Metade dos alunos nem sabia o que é parcela vincenda. Agora olha a mesma cláusula em Visual Law:

  • Plano anualR$ 99 por mês
  • Quer sair antes?Paga 20% do que falta
  • ExemploFaltando 6 meses, a multa é R$ 118,80

Mesmo conteúdo, mesmo valor jurídico. A diferença é que agora o aluno entende em 5 segundos, né? E o Rafa parou de discutir na recepção. É exatamente isso que o Visual Law faz.

Por que isso virou assunto sério no Brasil

Visual Law parece coisa de agência moderninha, mas não é. A própria Justiça e a lei brasileira passaram a cobrar comunicação clara. E quando o governo cobra, o mercado vai atrás.

A Justiça já recomenda

A Resolução 347 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2020, que trata da comunicação no Poder Judiciário, diz no parágrafo único do artigo 32 que, sempre que possível, devem ser usados recursos de direito visual para tornar documentos, dados e fluxos de trabalho mais claros e acessíveis. Em 2023, a Recomendação 144 do CNJ reforçou o uso de linguagem simples pelos tribunais. Desde então, vários tribunais criaram cartilhas e oficinas sobre o tema.

Memoriais para tribunal superior do escritório Ayres Britto redesenhados com Visual Law, em formato de livreto
Memoriais para o STF e o STJ do escritório Ayres Britto com Visual Law. Reprodução: vitta.design, case Ayres Britto

Agora é lei para o setor público

Em 14 de novembro de 2025, foi sancionada a Lei 15.263, que criou a Política Nacional de Linguagem Simples. Ela obriga os órgãos públicos, em todas as esferas, a escrever para o cidadão de um jeito fácil de encontrar, entender e usar: frase em ordem direta, frase curta, palavra comum no lugar de jargão.

E o que isso tem a ver com o seu negócio?

Pensa assim: se até o governo é obrigado a ser claro, o seu cliente vai esperar o mesmo de você. Contrato, proposta, orçamento, termo de uso, política de privacidade, manual: todo documento que confunde gera dúvida, atraso e venda perdida.

Clareza virou vantagem competitiva, e aqui eu não tô falando só do campo subjetivo. Pensa no marketing, por exemplo: SEO, legenda de post, anúncio, roteiro… Quanto menos enrolação, redundância e voltas e mais voltas para dizer algo objetivo, mais você se conecta com o seu público e com o algoritmo. E, principalmente, mais a sua mensagem principal chega de verdade em quem você quer.

Como funciona na prática

Visual Law não é enfeitar o documento. É reorganizar a informação para a pessoa achar o que precisa, na ordem em que ela precisa. Basicamente, transforma algo complicado e extenso em algo eficiente e imune a erros e conflitos. Os exemplos de Visual Law que ilustram este guia são projetos reais do Vitta, que eu apresento mais para a frente. Estes são os recursos mais usados:

RecursoPara que serveExemplo
Resumo no topoDar a visão geral antes dos detalhes“Neste contrato: valor, prazo, multa e como cancelar”
Títulos que respondemDeixar a pessoa ir direto ao ponto“Como eu cancelo?” no lugar de “Da rescisão”
TabelaComparar valores, prazos e condiçõesPlanos, parcelas, datas de pagamento
Linha do tempoMostrar etapas e prazosDo pedido à entrega, em 4 passos
ÍconesMarcar tipos de informaçãoUm ícone para prazo, outro para valor
FluxogramaExplicar decisões do tipo “se isso, então aquilo”O que acontece se atrasar o pagamento
QR codeLevar para um vídeo ou página com mais detalhesVídeo explicando a garantia
Os recursos de Visual Law mais usados, para que servem e um exemplo de cada.
Páginas de um contrato de compra e venda do QuintoAndar redesenhado com Visual Law, com ícones, blocos e perguntas em destaque
Contrato de compra e venda do QuintoAndar com Visual Law. Reprodução: vitta.design, case QuintoAndar

O que o Visual Law não é

  • Não é tirar o jurídico: o conteúdo continua completo. Só fica mais fácil de achar e de entender.
  • Não é encher de desenho: ícone sem função atrapalha. Cada elemento visual precisa ajudar a leitura e ter uma função objetiva, como em todo bom design. No fim, tudo é sobre a experiência do usuário.
  • Não é trabalho só de designer: quem escreve precisa pensar no leitor. O visual vem depois do texto claro.

Atenção: o formato visual não tira a validade de um documento, porque o que vale é o conteúdo e o que a lei exige. Mas, em contrato e documento jurídico, sempre valide a versão final com um advogado.

Onde o Visual Law costuma errar

Visual Law mal feito existe, e não é pouco. Os três erros que mais aparecem:

  • Infantilizar o leitor: ícone e cor demais fazem um documento sério parecer folheto de festa. É por isso que, no capítulo das petições, os juízes pedem moderação.
  • Excluir quem não enxerga: tabela ou fluxograma salvo como imagem, sem o texto junto, some para quem usa leitor de tela. O visual precisa somar ao texto, não substituir.
  • Ficar bonito e não ficar claro: redesenhar sem testar com quem lê é só trocar a fonte. Sem teste, ninguém sabe se o documento ficou mais fácil de entender.

UX Writing: a mesma fonte do Visual Law

Se tem uma disciplina que explica por que o Visual Law funciona, é o UX Writing. E ela faz parte da minha história também, então deixa eu te apresentar.

O que é UX Writing

UX vem de user experience, ou experiência do usuário. UX Writing é a escrita pensada para essa experiência: os textos que ajudam uma pessoa a usar um site, um aplicativo ou um serviço sem travar.

O Nielsen Norman Group, uma das maiores referências de usabilidade do mundo, define como a prática de escrever informação bem pensada, que leva em conta o contexto, as necessidades e o comportamento das pessoas. E tem uma diferença importante: o copywriting existe para convencer. O UX Writing existe para guiar, levando a pessoa do ponto A ao ponto B sem esforço, sem pressão e sem pegadinha.

Por que essa disciplina nasceu

Quando a compra, o cadastro e o atendimento foram para a tela, sumiu o vendedor que explicava as coisas no balcão. Quem passou a explicar foi o texto. E, se o texto confunde, ninguém está ali para salvar a venda.

O primeiro sinal forte veio em 1997, num estudo de John Morkes e Jakob Nielsen. Eles pegaram o mesmo site de turismo do estado de Nebraska, nos Estados Unidos, e escreveram cinco versões do conteúdo. Depois, mediram quanto as pessoas acertavam, quanto tempo levavam e quanto lembravam do que tinham lido:

Versão do textoO que mudouUsabilidade
Promocional (a original)Texto de folheto, cheio de elogioBase de comparação
ConcisaMenos palavras, mesma informação+58%
EscaneávelTítulos, listas e palavras-chave em destaque+47%
ObjetivaSem linguagem de propaganda+27%
As três juntasConcisa, escaneável e objetiva+124%
O mesmo site, cinco jeitos de escrever. Fonte: Morkes e Nielsen, 1997.

Repara: ninguém mexeu no visual do site. Só no texto. E a usabilidade mais que dobrou.

Em 2009, o designer Joshua Porter contou um caso que deu nome a tudo isso. Num projeto de loja virtual, as compras falhavam porque as pessoas digitavam um endereço diferente do cadastrado no cartão. Ele colocou uma frase no topo do formulário: confira se o endereço é o mesmo da fatura do cartão. E os erros sumiram. Ele chamou esses textos curtinhos de microcopy, o microtexto: pequeno no tamanho e grande no efeito.

No mesmo ano, o consultor Jared Spool publicou o caso que ficou conhecido como o botão de 300 milhões de dólares. Uma loja obrigava o cliente a criar conta para comprar. A equipe trocou o botão “Cadastrar” por “Continuar”, com o aviso de que não era preciso ter conta. Segundo Spool, os clientes que finalizavam a compra subiram 45%, e a loja faturou 300 milhões de dólares a mais no primeiro ano.

Com o tempo, as empresas de tecnologia começaram a contratar gente só para escrever interface. E o UX Writing virou profissão, com nome, método e cargo.

Que problemas reais ele resolve

Tirando o nome bonito, o UX Writing ataca problemas que todo negócio tem. E, olha só, são os mesmos que o Visual Law ataca no papel:

ProblemaSem UX WritingNo mundo jurídico
Desistência no meio do caminhoA pessoa trava no cadastro e fecha a páginaO cliente não entende a proposta e some
Suporte lotadoMensagem de erro vira ligação para o atendimentoO cliente liga para perguntar o que está no contrato
Erro de preenchimentoDado errado, compra recusada, retrabalhoPrazo perdido porque a regra estava escondida
Gente deixada de foraTexto que depende de cor ou posição exclui quem usa leitor de telaJuridiquês exclui quem não é advogado
DesconfiançaPromessa exagerada e letra miúdaCláusula que parece pegadinha vira briga
Os problemas que o UX Writing resolve na tela e o Visual Law resolve no documento.

Pé no chão: o que esses números não dizem

Agora o lado que quase ninguém conta. Eu adoro esses casos, mas eles não são receita de bolo:

  • O botão de 300 milhões é um relato. A loja nunca foi identificada e os dados não foram abertos. Serve para mostrar o tamanho do efeito, não como promessa de resultado.
  • O estudo de Nielsen é de 1997 e foi feito com um site só. Ele aponta a direção, mas a internet e os leitores mudaram muito.
  • Teste vale para aquele público. Copiar o botão de outra empresa não garante o mesmo resultado. O que funciona é testar com o seu cliente.
  • O mesmo poder que guia também manipula. Sabe aquele “Não, prefiro continuar pagando caro” no botão de recusar? Tem nome: confirmshaming. O site Deceptive Patterns define como manipular a pessoa pela emoção para ela fazer o que não faria. Isso é o oposto de UX Writing.
  • No jurídico, simplificar errado custa caro. Linguagem simples não é linguagem simplória. Cortar uma ressalva pode mudar o direito da pessoa, por isso o advogado continua validando a versão final.

Como funciona na prática: o método da Bianca Reis

Bianca Reis, UX Writer e Content Designer, sorrindo, de óculos e camisa preta
Bianca Reis, UX Writer e Content Designer. Reprodução: Alura

Quem me ensinou UX Writing foi a Bianca Reis. Ela é publicitária, pós-graduada em UX Design, mestranda em Design na UFPR e trabalha com conteúdo há quase 10 anos. Hoje é Content Designer no iFood e dá curso de UX Writing na Alura.

E tem um detalhe que me pegou: ela também veio do marketing. Era gerente de marketing antes de migrar para UX. Talvez por isso a frase dela que mais ficou comigo seja “gramática perfeita não garante experiência perfeita”. Ela brinca que passa 70% do tempo estudando e só 30% escrevendo. E é isso: UX Writing é mais sobre entender gente do que sobre escrever bonito.

No guia “Seu primeiro portfólio de UX Writing”, ela organiza a informação numa pirâmide invertida: primeiro o que a pessoa precisa saber para seguir, depois o resto. Olha ela aplicada ao contrato do Rafa, aquele da academia:

NívelO que éOnde ficaNo contrato do Rafa
EssencialO que a pessoa precisa saber para avançarTítulo“Você pode cancelar quando quiser”
ImportanteO que vem logo depoisPrimeira frase do texto“Antes de 12 meses, a multa é 20% do que falta”
ComplementarO que ajuda a entenderResto do texto“Faltando 6 meses, a multa é R$ 118,80”
AuxiliarO apoio, para quem quiserFim ou rodapé“Dúvidas? Fale com a recepção”
A pirâmide invertida do guia da Bianca Reis, aplicada a uma cláusula de cancelamento.

Ela também dá medidas de referência: em média, até 75 caracteres no título, 200 no texto de apoio e 25 no botão. E, na prática, a diferença entre texto comum e texto de UX aparece assim:

AntesDepoisA regra
“Erro 500. Operação inválida.”“Não deu para enviar. O arquivo precisa ser PDF de até 10 MB.”Erro diz o que houve e como resolver
“Clique aqui”“Baixar o contrato”O link diz o que vai acontecer
“O inadimplemento ensejará a suspensão do serviço.”“Se a fatura não for paga até o dia 10, o serviço para no dia 11.”Palavra comum e o essencial primeiro
“Veja as condições abaixo”“Veja as condições de cancelamento”Sem “abaixo”: quem usa leitor de tela não vê a posição
“Só hoje! Condições imperdíveis*”“Plano anual com 20% de desconto até 30/11”Verdade, sem gatilho e sem letra miúda
“Bem-vindo, cliente!”“Boas-vindas!”Linguagem que inclui todo mundo
Exemplos de antes e depois com as boas práticas de UX Writing do guia da Bianca Reis.

E a parte que mais mudou meu jeito de trabalhar: ela ensina a não usar o próprio gosto como régua. Antes de bater o martelo num texto, ela confere:

  • Leiturabilidade: uma calculadora mede se o texto está difícil, médio, fácil ou muito fácil. O alvo é fácil ou muito fácil.
  • Google Trends: entre dois sinônimos, fica o que as pessoas mais buscam, ou seja, a palavra do cliente.
  • A voz do cliente: comentários na loja de aplicativos, nas redes e no Reclame Aqui mostram como o público fala de verdade.
  • Dados de uso: o mapa de calor mostra até onde a pessoa lê. Se ninguém chega no fim, a informação importante sobe.

Até hoje, esse manual é lei em tudo o que eu escrevo, inclusive neste artigo rs.

Os três bebem da mesma fonte

Parece coisa de mundos diferentes, um do direito e outro da tecnologia. Mas UX Writing, Legal Design e Visual Law nasceram das mesmas ideias:

  • Design centrado no ser humano: Margaret Hagan, de Stanford, define Legal Design como a aplicação do design centrado no ser humano ao mundo do direito. É a mesma base de todo o UX: começar por quem usa, não por quem escreve.
  • Linguagem simples: frase curta, ordem direta e palavra comum. É o que a Lei 15.263 cobra do governo e o que o UX Writing pratica em cada botão.
  • Pesquisa de usabilidade: em 1997, Jakob Nielsen mostrou que 79% das pessoas testadas escaneavam as páginas e só 16% liam palavra por palavra. Vale para site e vale para contrato: ninguém lê tudo, todo mundo procura.

Por isso eu explico o Legal Design como um jeito de resolver problemas jurídicos com o design da escrita. O UX Writing faz isso numa tela. O Legal Design faz num contrato, numa petição ou no atendimento de um tribunal. E o Visual Law entra quando a organização visual ajuda a escrita a chegar mais longe.

UX WritingLegal DesignVisual Law
Onde atuaSite, aplicativo e serviço digitalO problema jurídico inteiro: documento, processo e atendimentoA peça que a pessoa vai ler
Pergunta de fundoA pessoa consegue usar sem travar?A pessoa entende e consegue exercer o direito dela?A pessoa acha o que precisa de primeira?
ExemploUm botão “Cancelar assinatura” fácil de acharRedesenhar como o cliente cancela um contratoA cláusula de cancelamento com tabela e ícones
UX Writing, Legal Design e Visual Law: lugares diferentes, a mesma pergunta de fundo.

Ou seja: se você já cuida bem dos textos do seu site, meio caminho do Visual Law está andado. E o contrário também vale: quem aprende Visual Law começa a enxergar texto confuso em todo lugar.

Visual Law em petições: o que os juízes acham

Até aqui eu falei muito de contrato e proposta. Mas, se você é advogado, sabe que é no processo que o Visual Law mais aparece: petição inicial, contestação, memorial. Documentos longos, lidos por quem tem uma pilha de processos na mesa.

E não é achismo meu. Em 2020, o grupo VisuLaw ouviu 147 juízes federais de 17 estados sobre o assunto. Olha o que eles disseram:

  • 77% acham que elementos visuais facilitam o entendimento, desde que usados com moderação.
  • 71% rejeitam redação prolixa, aquela que dá três voltas para dizer uma coisa só.
  • 62% não gostam de petição com muitas páginas.
  • 39,2% acham que QR code não deve ser usado em petição.

Os números são da pesquisa VisuLaw, publicada pela Análise Editorial e pelo Portal Amazônia.

Repara no “com moderação”. O juiz não quer petição com cara de apresentação de vendas. Ele quer achar o pedido, os fatos e as provas sem caçar no meio de 40 páginas.

O que costuma funcionar numa petição

  • Resumo dos pedidos no começo: em segundos, o juiz sabe o que está sendo pedido.
  • Linha do tempo dos fatos: em caso com muitas datas e acontecimentos, ela substitui páginas de narrativa.
  • Tabela para valores: parcelas, índices e totais lado a lado, sem conta escondida no texto.
  • Títulos que dizem o assunto: “Do atraso na entrega” diz muito mais que “Dos fatos II”.

E o que costuma atrapalhar: enfeite sem função, cor demais e QR code levando para fora do processo, que foi o recurso mais rejeitado na pesquisa. Ele funciona melhor em contrato e material para cliente do que em petição.

Contestação judicial do Santander redesenhada com Visual Law, com capa, ícones e quadros de resumo
Contestação judicial do Santander com Visual Law. Reprodução: vitta.design, case Santander

Reparou que é o mesmo princípio do contrato do Rafa? Muda o leitor, a lógica continua: organizar a informação para a pessoa achar o que ela precisa.

Visual Law e inteligência artificial

Uma pergunta que aparece muito no Google é “qual IA faz Visual Law?”. A resposta curta: nenhuma faz sozinha.

A IA ajuda bastante na parte da escrita. Ela reescreve uma cláusula em linguagem simples, sugere títulos em forma de pergunta, resume um documento longo em 4 linhas e propõe a estrutura de uma linha do tempo. É um ótimo rascunho.

Mas três coisas continuam com você e com o advogado:

  • Conferir se o sentido jurídico mudou: simplificar não pode alterar o que a cláusula garante. E a IA erra com a maior confiança rs.
  • Proteger os dados: contrato e processo costumam ter dado pessoal e informação sigilosa, protegidos pela LGPD e pelo sigilo profissional. Antes de colar algo numa IA, tire o que identifica as pessoas.
  • Decidir o que importa para o leitor: a IA não sabe que o seu cliente sempre liga para perguntar da multa. Você sabe.

Eu uso IA do mesmo jeito no marketing: para pesquisar e organizar ideias. A decisão do que fica, do que sai e de como a pessoa vai entender continua sendo de gente.

Como o Visual Law mudou a minha vida

Antes de contar o que eu fazia lá, deixa eu te apresentar o Vitta direito, porque ele merece.

O Vitta é um estúdio de Legal Design e Visual Law de São Paulo, fundado em 2019 pelo advogado e empresário Rui Caminha, junto com as diretoras do projeto, Kethellyn Siqueira e Regina Barros.

Página inicial do site do Vitta, com o título Visual Law e Legal Design: transformando documentos jurídicos em estratégia, e um contrato redesenhado ao lado
Página inicial do Vitta. Reprodução: vitta.design

O que o Vitta faz

  • Transforma documento jurídico em documento que gente entende: contrato, termo de uso, informativo de LGPD, código de conduta, manual de consórcio e até memorial para tribunal superior.
  • Faz tudo sob medida: começa entendendo quem vai ler, passa por protótipo e rodadas de ajuste e entrega o arquivo editável, em Word, Google Docs, Canva ou Figma.
  • Atende do tribunal à multinacional: escritórios, tribunais estaduais e federais e empresas como TIM, Santander, Honda, Chevrolet, Ipiranga e QuintoAndar.

O que o Vitta já conquistou

  • Prêmio internacional: em 2022, o projeto feito com a TIM levou o prêmio de inovação em operações jurídicas do CLOC, em Las Vegas. Foi a primeira vez que uma empresa da América Latina recebeu esse reconhecimento, segundo a Vanguard Law Magazine.
  • Resultado medido: com a fatura redesenhada da TIM, os pagamentos efetivados subiram 40%. No contrato do QuintoAndar, a compreensão dos clientes melhorou 90%, segundo os números que o próprio Vitta publica no site.
  • Outros reconhecimentos: a mesma reportagem cita prêmios no IIIDaward (Áustria), no Lusófonos (Portugal) e no Future Law (Brasil). Não à toa, pra mim, é a empresa de Visual Law mais premiada do mundo.
Páginas do Contrato Fácil da TIM com Visual Law, com blocos coloridos, resumo e QR code
Contrato Fácil da TIM, o projeto premiado no CLOC 2022. Reprodução: vitta.design, case TIM

Se você quer um contrato, termo ou proposta que o seu cliente realmente entenda, dá para falar com eles pelo formulário do site ou pelo Instagram @vitta.design.

Agora, a parte pessoal

Por um ano e meio, eu trabalhei como analista de marketing no Vitta, junto da holding DHUB, que reunia todas as empresas jurídicas do prédio. E lá eu tive várias experiências, como:

  • Criei o podcast da holding DHUB.
  • Produzi conteúdo para as redes e para os materiais da empresa.
  • Cuidei da estratégia dos eventos jurídicos em que o Vitta tinha estande e palestra, como os da AB2L e a Fenalaw, e também dos eventos internos, como os da Benner Metrics: a comunicação antes, durante e depois, a captação de leads e a mensuração de cada ação.

Só que tinha um detalhe: numa empresa de Visual Law, UX e design não eram acabamento. Eram o coração de tudo. Cada post, cada peça, cada material precisava ser claro, organizado e fácil de entender, porque era isso que a empresa vendia. E simplesmente não dava para pregar clareza com um post confuso, né?

E, na maior parte de toda essa jornada, uma das pessoas com quem eu mais tinha contato direto no dia a dia era a própria diretora do Vitta, a Kethellyn Siqueira… E foi com ela que tudo mudou para sempre. Imagina só: eu, que na época era viciado em cursos de tráfego pago e copy, agora precisava entender de grid, hierarquia da informação, diagramação, espaçamento entre linhas e letras, a função dos pesos de fontes, por que existem “white spaces” dentro de designs, qual a função de cada elemento que estamos colocando, se o contraste e as cores da peça estavam adequados e legíveis, a diferença entre título e descrição das comunicações e por que elas devem se diferenciar, como as pessoas vão escanear esse conteúdo (ainda mais se ficamos justificando os textos para a direita sem motivo algum). O alinhamento do todo está fazendo sentido, ou a falta dele é proposital? Está tendo as proporções corretas na proposta? E o ritmo e as repetições, como estão funcionando? A sensação de proximidade e movimento está sendo transmitida? E, finalmente… POR QUE TEM 6 PIXELS A MAIS NA DIREITA DO QUE NA ESQUERDA?

Pois é, esse olhar grudou em mim como uma tatuagem rs.

Hoje, quando eu monto um site, escrevo um artigo ou roteiro, edito um vídeo ou crio um anúncio, eu me faço as mesmas perguntas de lá: a pessoa entende de primeira? Ela acha o que precisa? Tem alguma coisa aqui só enfeitando? É a base do meu método, e é por isso que eu sou tão chato com espaço, letra e clareza. Entãaaaao é, a culpa é do Visual Law rs.

Isso significa que eu consigo aplicar tudo isso 100% e com maestria? Claro que não. Inclusive, às vezes desisto de propósito, por ser muito complexo e difícil ser tão detalhista. Mas uma coisa eu tenho certeza: na grande maioria das vezes, EU SEI que a questão está ali me encarando diretamente (e eu encarando ela) e também sei da sua importância. Mas é exatamente por isso que existem profissionais dedicados a essas cadeiras: não é algo que “basta saber” para realmente fazer acontecer.

Como aplicar no seu negócio, mesmo sem ser advogado

Você não precisa de um escritório de advocacia para começar. Escolha um documento e siga estes passos:

  1. Comece pelo documento que mais gera dúvida: geralmente é a proposta, o orçamento ou o contrato. Se o cliente sempre liga para perguntar a mesma coisa, é por ali.
  2. Coloque um resumo no topo: em 3 ou 4 linhas, o que a pessoa precisa saber antes de tudo.
  3. Troque os títulos por perguntas: “Quanto custa?”, “Quando eu pago?”, “Como eu cancelo?”.
  4. Troque o jargão: “adimplemento” vira “pagamento”, “rescisão” vira “cancelamento”.
  5. Use tabela para números: valores, prazos e condições ficam muito mais claros lado a lado.
  6. Teste com alguém de fora: peça para uma pessoa que não conhece o assunto ler e explicar com as palavras dela.
  7. Valide com um advogado quando o documento tiver valor jurídico.

Pausa de respiro

E a tabela de planos do Rafa?

Cliente hipotético: Academia do Rafa

Antes, o Rafa mandava os planos num textão no WhatsApp, e metade das pessoas respondia com mais perguntas. Aí ele aplicou o que você acabou de ler:

  • MensalR$ 129
  • AnualR$ 99 por mês
  • Horário6h às 22h, de segunda a sábado
  • Avaliação físicaGrátis na matrícula
  • Desistiu?Em até 7 dias, devolve tudo

Resultado? Menos pergunta repetida e mais gente se matriculando direto. Clareza vende, Rafa =)

Perguntas frequentes

Visual Law tem validade jurídica?

O formato visual não tira a validade de um documento. O que define a validade é o conteúdo e o que a lei exige para aquele tipo de documento. O próprio CNJ recomenda recursos de direito visual. Mesmo assim, em contrato e peça jurídica, valide sempre com um advogado.

Qual é a diferença entre Visual Law e Legal Design?

Legal Design é o método: resolver problemas jurídicos com o design, a começar pelo design da escrita, de um documento a um serviço inteiro. Visual Law é uma das ferramentas desse método, focada no visual e na organização do documento.

Serve só para advogado?

Não. Qualquer negócio que manda contrato, proposta, orçamento ou termo para cliente pode usar. Os princípios são os mesmos: resumo no topo, títulos claros, palavra comum e informação organizada.

Preciso de um designer para começar?

Para começar, não. A maior parte do ganho vem do texto claro e da organização: resumo, perguntas como título e tabela. O designer entra para deixar o material com a cara da sua marca.

Visual Law pode ser usado em petição?

Pode. Numa pesquisa do grupo VisuLaw com 147 juízes federais, 77% disseram que elementos visuais facilitam o entendimento, desde que usados com moderação. Resumo dos pedidos, linha do tempo e tabela ajudam. Enfeite e QR code costumam atrapalhar.

Quais são as técnicas de Visual Law?

As mais usadas são resumo no topo, títulos em forma de pergunta, tabela, linha do tempo, fluxograma, ícones com função e linguagem simples. A técnica certa depende de quem vai ler: cliente, juiz ou parte contrária.

Como fazer um Visual Law?

Escolha o documento, entenda quem vai ler e qual é a dúvida principal, reescreva em linguagem simples, organize com resumo, títulos e tabelas e teste com alguém de fora. Em documento jurídico, valide com um advogado. O passo a passo completo está na seção “Como aplicar no seu negócio, mesmo sem ser advogado”.

Qual IA faz Visual Law?

Nenhuma faz sozinha. A IA ajuda a reescrever em linguagem simples, resumir e sugerir títulos, mas conferir o sentido jurídico, proteger os dados e decidir como organizar a informação continua com quem conhece o documento.

O que UX Writing tem a ver com Visual Law?

Os dois bebem da mesma fonte: design centrado no ser humano, linguagem simples e pesquisa de usabilidade. O UX Writing organiza o texto de sites e aplicativos para a pessoa usar sem travar. O Visual Law faz o mesmo com documentos jurídicos, usando também a organização visual.

Resumindo

  • Legal Design é resolver problemas jurídicos com o design da escrita.
  • Visual Law é a parte que cuida do visual e da organização do documento.
  • A Justiça recomenda desde 2020, e a Lei 15.263 de 2025 cobra linguagem simples de todo o setor público.
  • UX Writing, Legal Design e Visual Law bebem da mesma fonte: design centrado no ser humano, linguagem simples e pesquisa de usabilidade.
  • Em petição, 77% dos juízes federais ouvidos pela VisuLaw aprovam o visual, desde que com moderação.
  • A IA ajuda no rascunho, mas não faz Visual Law sozinha.
  • Qualquer negócio pode aplicar: resumo no topo, títulos em pergunta, palavra comum e tabela.
  • Para mim, foi a base do método: clareza não é detalhe, é o que faz a pessoa entender e comprar.

Se quiser essa clareza no site, no conteúdo e nos materiais do seu negócio, conheça o meu trabalho de social media para empresas ou me chama no WhatsApp.

Thiago Effy

Sobre o autor

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